França
"Dezenas de jovens envolveram-se esta noite em novos confrontos com a polícia em Toulouse, no Sudoeste de França.(...)Há quatro noites que Toulouse é palco, à semelhança de dezenas de outras cidades francesas de distúrbios levados a cabo por jovens moradores em bairros desfavorecidos.(...)Os confrontos em Toulouse marcam o arranque da 13ª noite de violência em França."in PúblicoPortugal
(mais precisamente em Lisboa, na loja Extra da Avenida Álvares Cabral)Decidido a pagar os iogurtes de manga/ actimel de morango/ manteiga/ fiambre e a adquirir mais alguns pregos para o meu caixão de fumador, aproximo-me da caixa deixando, no entanto, uma distância de segurança entre mim e o cliente que estava a ser atendido. A mesma distância que normalmente deixo na fila do multibanco, ou do carro da frente. Aguardava tranquilamente a minha vez quando entra na loja um rapaz (layout: alto, preto, sobretudo de marca, boné). Sem parar, dirigiu-se ao empregado da loja com um elogio irónico: "Então bacano, és sempre o mais rápido aqui, o que é que se passa". E continuou a falar com ele. Queria saber se a "Mafalda" estava a trabalhar esta noite.
Ingénuo como sou, pensei que se conheciam. Vinte segundos depois, e uma vez que a todas as perguntas feitas o empregado respondeu com silêncio, percebi que não era bem essa a realidade. Percebi também que o meu lugar na fila estava ameaçado. Tal como os condutores que abusam do meu zelo na estrada para mudar de via, também este rapaz achou por bem ocupar o espaço que deixei vazio. Ele seria o próximo a ser atendido. Ele e os seus três amigos, acabados de entrar (layout: cópia do anterior).
A tal "Mafalda" acabou por aparecer - nem tinha outro remédio, tantas vezes eles gritaram por ela. Abriu a caixa do lado, à qual eles se dirigiram. Eu coloquei os meus iogurtes no balcão e comecei a ser atendido. Enquanto procurava o dinheiro nos bolsos, uma caixa de chiclets de canela caiu ao chão.
"Anda lá com isso, Mafalda" / chiclets / "vá lá que o táxi tá à espera" / kinder bueno / "o que é que tens na mão? Nada, Mafalda" / trident de morango / "junta aí um português vermelho mas rápido, caralho" / kit-kat / "traz aí uma birra" / bolicao / "epá, põe lá isso no sítio...Não tirei nada, Mafalda" / "despacha-te, puta" / "tou a pagar táxi, caralho". Não sei o que eles estavam a pagar, apenas vi algumas das coisas que colocaram nos bolsos. Por esta altura, o empregado já não me atendia, nem estava por perto. O momento do seu regresso à caixa coincidiu com a saída dos rapazes, que aproveitaram para pegar em dois ou três sacos de "manhãzitos" da panrico. O empregado voltou às traseiras da loja.
Olho para a Mafalda enquanto ela diz que está toda a tremer. Que um deles estava armado. "Chama a polícia", grita ela para o Carlos, o "meu" empregado. Um dos rapazes regressa e coloca os "manhãzitos" de volta na prateleira - "Tá aqui, não roubámos nada" / "O meu colega já chamou a polícia" / "Mas tá aqui, caralho, diz lá a esse filho da puta que não é preciso, caralho, CHAMA-O LÁ, CARALHO, QUE SE ESSE FILHA DA PUTA CHAMA A BÓFIA EU VOLTO AQUI E PARTO-LHE A CARA TODA, CARALHO, OUVISTE, CARALHO...". E saiu.
Durante o rescaldo fico a saber: que a loja só tem segurança ao fim-de-semana, "apesar de ser a que mais factura enquanto a do Bairro Alto tem direito a segurança toda a semana".; que isto acontece constantemente; que "tivemos sorte porque eram apenas quatro (...) costumam vir aos dez e aí vai cada um para seu lado e roubam o que querem, nós só vemos os buracos nas prateleiras" ; que a mãe da Mafalda não quer que ela trabalhe à noite mas que ela gosta, apesar de tudo ; que o Carlos acha que eles "devem pensar que estão em Angola, os filhos da puta"; que o Carlos só "queria era apanhar um destes cabrões sozinhos"; que "a polícia nunca chega quando é preciso, é a polícia que temos"; que o Carlos responsabiliza a Mafalda por esta não ter visto o que eles roubaram; que a Mafalda acredita que um dia destes o Carlos leva uma facada porque insiste em ir para fora da loja a ver se os vê.
A polícia entrou e saiu em dois minutos. A Mafalda está demasiado nervosa para atender alguém. O Carlos está nas traseiras. Eu já faço parte da mobília. Apetece-me fumar mas não o faço - sei que é proibido fumar dentro da loja.
(...)
Entro no carro. Deixo os Sigur Rós entrarem.Tranco as portas. Acendo um cigarro. Não gosto da vida como ela é.
ps: sim
Jo, sete minutos depois de te deixar em casa.